O Tarot e os Astros

Como começar a entender as correspondências

Olá, querido(a) Neófito, tudo bem com você?

Deixa eu começar com uma situação que acontece muito com quem está aprofundando os estudos de Tarot.

Você lê num livro que o Ás de Espadas é Ar puro, força mental cortante, o início de um ciclo de clareza e decisão, e faz sentido, você incorpora isso, começa a usar nas suas leituras e funciona, então você pega um outro livro, de uma tradição diferente, e lê que o Ás de Espadas é Vênus em Gêmeos, ou Mercúrio ascendente, ou algo completamente diferente do que você havia aprendido, e aí você fica sem saber em qual dos dois confiar.

Isso não é falta de estudo da sua parte, é um problema real que existe no campo do Tarot, e hoje eu quero te ajudar a navegar ele de forma inteligente.

Entendendo correspondências

Antes de entrar nas contradições, é importante entender por que as correspondências astrológicas foram criadas, porque a razão de existirem já revela muito sobre como devem ser usadas.

O Tarot como sistema esotérico estruturado foi desenvolvido principalmente no século XIX, quando a Ordem Hermética da Golden Dawn começou a criar um sistema unificado que conectava o Tarot à Cabala, à astrologia e à magia cerimonial, e o objetivo era criar um mapa de correspondências onde cada símbolo de um sistema se conectava a símbolos equivalentes nos outros sistemas, de forma que aprender um aprofundasse a compreensão de todos os outros.

A lógica era hermética no sentido mais literal, baseada no princípio da correspondência de que como em cima assim embaixo, de que padrões que existem num plano da realidade se refletem em outros planos, e que mapear essas correspondências criava um sistema de conhecimento mais completo do que qualquer tradição isolada conseguiria produzir.

Israel Regardie documentou esse sistema em The Golden Dawn em 1937, e Arthur Edward Waite e Pamela Colman Smith usaram correspondências derivadas desse sistema para criar o Rider-Waite-Smith em 1910, então quando você estuda as correspondências astrológicas do baralho que provavelmente usa, está estudando as escolhas específicas que um grupo de ocultistas vitorianos fez ao criar esse sistema integrado.

Isso já é o primeiro ponto importante: as correspondências são escolhas de um sistema específico, não verdades absolutas que existem independente de qualquer sistema.

O problema

Existem pelo menos três grandes sistemas de correspondências entre Tarot e astrologia que circulam nos livros e nos cursos, e eles não concordam entre si em vários pontos.

O sistema da Golden Dawn, que é o mais difundido e o que fundamenta o Rider-Waite-Smith, associa cada Arcano Maior a um planeta ou signo seguindo o sistema de letras hebraicas, e distribui os Arcanos Menores pelos 36 decanos zodiacais usando a sequência caldeia de planetas.

O sistema de Aleister Crowley, que fundamenta o Tarot Thoth, usa as mesmas correspondências cabalísticas da Golden Dawn com uma exceção importante: Crowley inverteu A Estrela e O Imperador, associando A Estrela a Áries e O Imperador a Aquário, argumentando que havia recebido uma revelação iniciática que justificava essa inversão em The Book of the Law.

E existem ainda sistemas de Tarot de Marselha que não usam correspondências astrológicas estruturadas da mesma forma, tratando as cartas como sistemas de símbolo independentes sem o mapeamento preciso planeta-signo da Golden Dawn.

Quando você pega um livro que não especifica qual sistema está usando, frequentemente está misturando correspondências de tradições diferentes sem perceber, e aí aparecem as contradições que geram confusão.

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E no que isso ajuda?

As correspondências astrológicas são genuinamente úteis em situações específicas, e vale entender quais são essas situações para usar a ferramenta no momento certo.

A primeira situação é quando você precisa entender por que uma carta tem as qualidades que tem, porque a correspondência astrológica não é um significado adicional colado por cima do significado original, ela é a estrutura lógica que explica o significado original, então quando você entende que o 3 de Espadas é Saturno em Libra, você para de memorizar que essa carta fala de dor e separação e começa a entender que ela fala de dor e separação porque Saturno aplica a lei com precisão máxima em exaltação em Libra, e a lei aplicada com precisão máxima no campo das relações produz exatamente a separação dolorosa que a carta descreve.

A segunda situação é quando você quer aprofundar uma leitura que parece incompleta, porque as correspondências astrológicas te dão acesso a camadas de significado que o símbolo visual sozinho não alcança, e você consegue identificar não apenas o que a carta está dizendo mas por que está dizendo e com que qualidade específica de campo.

A terceira situação é quando você está trabalhando com timing, porque as correspondências dos Arcanos Menores aos decanos te permitem associar cartas a períodos específicos do calendário astrológico, o que pode adicionar uma dimensão de temporalidade às leituras quando o contexto pede isso.

E quando atrapalha?

E agora vem a parte que a maioria dos livros não fala, que é quando as correspondências ativamente prejudicam a leitura.

A primeira situação problemática é quando a correspondência vira um filtro que impede você de ver o que está na imagem, porque o Rider-Waite-Smith foi desenhado com uma simbologia visual muito rica e muito intencional, e quando você olha para o 4 de Copas e imediatamente pensa Lua em Câncer em vez de observar a figura de braços cruzados ignorando o cálice oferecido e o campo de saturação emocional que essa imagem está descrevendo, você está usando a correspondência para pular a leitura em vez de aprofundá-la.

A segunda situação problemática é quando você está lendo para alguém que não tem nenhuma familiaridade com astrologia, porque introduzir Saturno em Libra numa leitura para uma pessoa que nunca estudou astrologia não adiciona clareza, adiciona distância, e o Tarot é uma ferramenta de comunicação antes de ser um sistema de conhecimento esotérico, então a correspondência que não pode ser traduzida para o campo da pessoa que está sendo lida não está servindo à leitura.

A terceira situação problemática é quando a correspondência de um sistema contradiz a correspondência de outro e você não sabe qual seguir, porque nesse caso usar qualquer uma das correspondências sem clareza sobre por que você está escolhendo aquela e não a outra vai criar inconsistências internas na leitura que vão enfraquecer a coerência do que está sendo dito.

A quarta situação, que é talvez a mais sutil, é quando a correspondência cria uma expectativa que fecha a percepção em vez de abri-la, porque se você sabe que o 9 de Espadas é Marte em Gêmeos e já tem uma ideia formada de como isso deve aparecer numa leitura, pode ser que o campo específico daquela tiragem esteja expressando uma qualidade diferente da mesma carta, e a correspondência memorizada vai impedir que você a veja.

O que eu recomendo

A resposta honesta é que você precisa escolher um sistema, estudá-lo com profundidade suficiente para entender sua lógica interna, e então usar esse sistema de forma consistente nas suas leituras.

Isso não significa que os outros sistemas estão errados, significa que qualquer sistema de correspondências só funciona como ferramenta quando tem coerência interna, e coerência interna só existe quando você está operando dentro de um único sistema de cada vez.

Se você usa o Rider-Waite-Smith ou qualquer baralho derivado dele, o sistema da Golden Dawn é o mais coerente para usar, porque foi o sistema que fundamentou as escolhas visuais e simbólicas do baralho, então as correspondências e os símbolos estão falando a mesma língua.

Se você usa o Tarot Thoth de Crowley, o sistema de Crowley é o mais coerente, incluindo a inversão de A Estrela e O Imperador, porque o baralho foi desenhado por Lady Frieda Harris seguindo as instruções de Crowley dentro do seu sistema específico.

O problema surge quando você usa um baralho de uma tradição e as correspondências de outra, porque aí os dois sistemas estão falando línguas diferentes e as contradições que surgem não são resolvíveis dentro de nenhum dos dois sistemas isoladamente.

E como aplicar?

Existe uma distinção que eu aprendi a fazer ao longo do tempo e que mudou completamente a forma como uso as correspondências nas minhas leituras.

A distinção é entre usar a correspondência para entender e usar a correspondência para substituir.

Usar para entender significa estudar a correspondência até que ela te ajude a ver a carta com mais clareza, até que Saturno em Libra no 3 de Espadas ilumine o que você já estava percebendo na imagem, e depois deixar a correspondência de lado e ler o campo que está na frente.

Usar para substituir significa olhar para a carta, pensar Saturno em Libra, e então ler Saturno em Libra em vez de ler o 3 de Espadas, que é uma diferença enorme, porque Saturno em Libra é um conceito abstrato que você estudou, e o 3 de Espadas naquela posição específica daquela tiragem específica para aquela pessoa específica é um campo vivo que pode expressar qualidades que nenhum conceito abstrato vai capturar completamente.

A correspondência é um mapa, e o mapa não é o território, como Alfred Korzybski formulou no século XX, e os alquimistas da tradição hermética sabiam a mesma coisa quando diziam que o símbolo aponta para o que não pode ser completamente contido no símbolo.

O Princípio de Causa e Efeito

E chegamos no sétimo, que é o mais diretamente operativo pra leitura de Tarot na minha experiência.

Ele diz que nada acontece por acaso. Que todo efeito tem uma causa e toda causa produz um efeito. Não no sentido determinista de que não há escolha, mas no sentido de que o campo é um sistema de relações onde cada movimento produz consequências que se propagam através do tempo.

Cada tiragem é a leitura de um campo de causas e efeitos em andamento. As cartas mostram o que está sendo causado agora e o que tende a se manifestar como efeito se o campo permanecer como está. A leitura não é previsão determinista. É um mapa de probabilidades baseado nas causas que estão ativas no campo agora.

A carta que carrega esse princípio é o Julgamento. Ele não representa punição. Representa a lei de causa e efeito chegando ao seu ponto de revelação. O que foi semeado ao longo de um ciclo inteiro emerge agora de forma irrevogável. As figuras que saem dos caixões estão respondendo ao chamado das causas que elas próprias colocaram em movimento.

O resumão

Correspondências astrológicas são ferramentas, e como toda ferramenta, o valor delas depende de saber quando usar e quando guardar.

O estudo das correspondências aprofunda a compreensão do Tarot de uma forma que nenhuma outra abordagem consegue, porque ele revela a lógica estrutural que está por baixo dos significados convencionais e conecta o Tarot a um campo de conhecimento muito maior do que o baralho sozinho.

Mas a leitura acontece no presente, com um campo específico, para uma pessoa específica, num momento específico, e esse campo específico sempre vai ter qualidades que transcendem qualquer correspondência que você estudou, porque o vivo sempre excede o mapa.

A habilidade que você está desenvolvendo é a de usar o mapa o suficiente para não se perder, e soltá-lo quando o território pede que você veja sem mediação.

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Espero que essa reflexão inspire você a transformar sua prática mágica e espiritual. Não importa o objetivo — seja desenvolver mediunidade, atrair prosperidade ou encontrar o amor —, um plano bem estruturado pode fazer toda a diferença.

Que sua jornada seja repleta de evolução e realizações.

O Neófito