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O retorno Alquímico
A Roda da Fortuna e o ciclo da alquimia
Olá, querido(a) Neófito, tudo bem com você?
Tem uma carta do Tarot que eu acho que é a mais mal interpretada de todo o baralho, e não é a Morte, não é o Diabo, não é a Torre.
É a Roda da Fortuna.
A maioria das pessoas olha para ela e pensa em sorte, em destino, naquela coisa vaga de que o que sobe desce e o que desce sobe, e está certo, tem isso, mas é a camada mais superficial do que essa carta está dizendo.
Porque a Roda da Fortuna não é sobre sorte, é sobre lei, e a lei que ela está descrevendo foi mapeada pelos alquimistas medievais com uma precisão que a maioria dos estudiosos de Tarot ainda não conectou completamente.
Hoje eu quero te mostrar essa conexão.
O grande ciclo
Os alquimistas medievais trabalhavam com uma ideia central que aparece em todas as tradições herméticas, que nada se cria, nada se destrói, tudo se transforma, mas o que eles queriam dizer com isso era mais específico do que parece.
Eles observavam que a matéria submetida ao processo alquímico não seguia uma linha reta do estado bruto ao estado purificado, ela circulava, passava pelo mesmo ponto várias vezes, mas cada passagem acontecia num nível diferente de refinamento, então o que parecia ser o mesmo ponto era na verdade o mesmo ponto numa espiral, não num círculo plano.
Paracelso, no século XVI, descrevia esse movimento como a lei fundamental da natureza, que toda transformação acontece em ciclos, e que cada ciclo que se completa não retorna ao exato ponto de origem mas a um ponto equivalente num nível mais elevado ou mais profundo de refinamento, porque a matéria que passou pelo fogo e voltou ao estado sólido não é a mesma matéria de antes, é uma matéria que carrega a memória do fogo.
O Corpus Hermeticum, compilado entre os séculos I e III d.C., descrevia esse princípio em termos cosmológicos, que a alma que desce ao plano material e depois retorna ao plano espiritual não retorna ao ponto exato de onde saiu, retorna transformada pelo que viveu no ciclo, e o retorno é sempre para um ponto equivalente, não para o ponto idêntico.
Isso é o que os alquimistas chamavam de Circulatio, a operação de fazer a matéria circular pelo processo repetidas vezes até que o refinamento seja completo.
O Arcano do Circulatio

Quando você olha a Roda da Fortuna no Rider-Waite-Smith com essa lente, a imagem inteira muda de significado.
No anel externo da roda estão as letras T-A-R-O e R-O-T-A, que se leem em ciclo e que formam também T-O-R-A e outras combinações dependendo de onde você começa, e é uma roda de linguagem que nunca tem começo nem fim fixos, que é a Circulatio na própria estrutura do símbolo.
As figuras que sobem e descem nos lados da roda não estão competindo entre si, estão na mesma roda, no mesmo processo, em fases diferentes do mesmo ciclo, porque a figura que desce não foi derrotada, está completando uma fase que vai permitir que ela suba de novo, mas diferente de antes.
No centro da roda está o eixo imóvel, e esse detalhe é o mais importante de toda a imagem e o mais ignorado, porque o eixo não gira, o eixo é o ponto fixo em torno do qual a roda se move, e na tradição hermética o eixo representa o princípio que não é afetado pelo ciclo, a consciência que observa o movimento sem ser varrida por ele, que é o que os alquimistas chamavam de Quintessência, o quinto elemento que permeia os quatro elementos em rotação sem se confundir com nenhum deles.
Júpiter como regente da Roda da Fortuna adiciona a dimensão dos grandes ciclos, porque Júpiter não governa os detalhes, ele governa o arco maior, o movimento que acontece numa escala de tempo que transcende o episódio individual, e a Roda não está descrevendo o que vai acontecer na semana que vem, está descrevendo a lei que governa todos os ciclos, grandes e pequenos, ao mesmo tempo.
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O retorno e a espiral
Friedrich Nietzsche, no século XIX, formulou o conceito do eterno retorno como um teste filosófico, e se tudo que você viveu se repetisse infinitamente, exatamente da mesma forma, para sempre, você seria capaz de querer isso, mas os alquimistas medievais já tinham uma resposta para essa pergunta séculos antes de Nietzsche formulá-la.
O retorno não é idêntico, é equivalente, e a diferença é tudo.
Um ciclo idêntico seria o inferno que Nietzsche descrevia, a repetição sem aprendizado, o movimento que volta ao ponto exato de partida sem nada ter mudado, mas o ciclo alquímico é uma espiral, não um círculo plano, e cada volta passa pelo mesmo ponto em termos de posição relativa mas num nível diferente de refinamento da matéria.
Quando a Roda da Fortuna aparece numa tiragem, ela não está dizendo que o que aconteceu antes vai acontecer de novo da mesma forma, está dizendo que o campo está num ponto equivalente a um ponto anterior do ciclo, mas num nível diferente de desenvolvimento, então se você viveu um período de dificuldade antes e a Roda aparece agora, ela não está anunciando exatamente a mesma dificuldade, está dizendo que o campo chegou num ponto equivalente da espiral onde uma operação similar precisa acontecer, mas o que vai ser processado agora é mais profundo do que o que foi processado da última vez porque o ciclo anterior já cumpriu sua função.
É como o retorno de Saturno no mapa astrológico, que volta ao ponto natal depois de aproximadamente 29 anos, mas a pessoa que recebe esse retorno não é a mesma pessoa que estava no ponto de origem, é alguém que carrega 29 anos de experiência do ciclo, e o ponto é equivalente, não idêntico, e é exatamente por isso que o retorno de Saturno é tão transformador, porque é o campo que retorna com toda a memória do ciclo.
As figuras da carta
No Rider-Waite-Smith, quatro figuras aparecem nos cantos da carta, cada uma numa nuvem, cada uma representando um dos quatro evangelistas e consequentemente os quatro elementos e os quatro signos fixos do zodíaco, o touro que é Touro e Terra, a águia que é Escorpião e Água, o leão que é Leão e Fogo, e o anjo que é Aquário e Ar.
Cada uma dessas figuras está lendo um livro, e todos eles estão lendo enquanto a Roda gira.
Esse detalhe é a chave alquímica mais precisa de toda a carta, porque as quatro figuras representam os quatro elementos em seu aspecto fixo, os quatro princípios que não giram com a Roda mas que observam o ciclo e aprendem com ele, e o livro que cada figura lê é o conhecimento acumulado pelos ciclos anteriores, onde cada volta da Roda acrescenta uma página, e o que está sendo lido agora é o resultado de todos os ciclos anteriores que chegaram ao mesmo ponto equivalente da espiral.
O que a roda pede
Quando a Roda da Fortuna aparece numa tiragem, a primeira pergunta que ela faz não é o que vai acontecer, é em que ponto da espiral o campo está.
Se aparece em posição de momento atual, o campo está num ponto de inflexão do ciclo, onde algo está completando uma fase e iniciando a próxima, e a Circulatio está ativa e o movimento que está acontecendo não pode ser detido pela vontade individual, porque é Júpiter operando no arco maior do ciclo.
Se aparece em posição de bloqueio, o que está impedindo o avanço é a resistência ao ciclo, porque a pessoa ou a situação está tentando manter uma posição na roda que o ciclo já determinou que deve mudar, e é como tentar segurar a roda no ponto mais alto com força bruta, o que não apenas não funciona mas esgota o campo.
Se aparece em posição de resultado, o campo está sendo conduzido em direção a um ponto equivalente de um ciclo anterior, mas num nível diferente de refinamento, e o resultado não é uma repetição, é uma revisitação com maior profundidade.
E em qualquer posição, a Roda sempre faz a mesma pergunta fundamental: você está identificado com as figuras que sobem e descem, ou com o eixo que não se move?
O eixo imóvel
Essa é a dimensão mais profunda da Roda da Fortuna e a que mais diretamente se conecta com o trabalho alquímico.
Os alquimistas entendiam que a Grande Obra não era um processo de mudar as circunstâncias externas, era um processo de desenvolver no interior do praticante a qualidade do eixo, a capacidade de observar o ciclo sem ser arrastado por ele, e Iâmblico de Cálcis, no De Mysteriis do século III, descrevia o objetivo da teurgia como a criação de um ponto fixo no interior do praticante que permanece imóvel enquanto tudo ao redor gira, não a ausência de ciclo, não a fuga do movimento, mas a presença de um centro que não é perturbado pelo movimento ao redor.
Carl Jung, em Psicologia e Alquimia, descrevia esse mesmo processo como individuação, o desenvolvimento de um Self que não se confunde com os conteúdos que passam pela consciência, porque as emoções giram, as circunstâncias giram, os ciclos de vida giram, e o processo de individuação é o processo de desenvolver o eixo interno que observa esse giro sem ser ele.
A Roda da Fortuna no Tarot é ao mesmo tempo a descrição do ciclo e o convite para encontrar o eixo, e ela não está dizendo que o ciclo vai parar, está dizendo que há um ponto dentro do ciclo que não gira, e encontrar esse ponto é o trabalho.
A grande obra
Quando você coloca a Roda da Fortuna dentro da sequência dos 22 Arcanos Maiores como fases da Grande Obra, ela aparece no décimo lugar, e dez é o número de Malkuth na Árvore da Vida, o reino, o plano mais concreto de manifestação, e também o número do retorno ao um depois de ter percorrido o ciclo completo dos nove anteriores.
A Roda no décimo lugar não é aleatória, ela está exatamente no ponto de inflexão do ciclo dos Arcanos Maiores, o ponto em que o processo que começou com o Louco passou pelas operações iniciais do Mago à Força, atravessou o aprofundamento do Eremita, e agora chega ao ponto em que o ciclo vai dobrar sobre si mesmo e começar a fase mais profunda da Grande Obra.
A Roda no meio dos 22 arcanos é a Circulatio no meio do processo, e o campo que chegou até aqui vai percorrer os 12 arcanos seguintes num nível de profundidade diferente do que percorreu os 9 anteriores, não porque vai repetir os mesmos temas, mas porque o ciclo vai dobrar sobre si mesmo e revelar o que estava oculto nas camadas mais profundas da matéria.
A Roda gira, e cada vez que ela gira, o que emerge é mais refinado do que o que entrou, e essa é a lei, e a lei não tem exceção.
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Espero que essa reflexão inspire você a transformar sua prática mágica e espiritual. Não importa o objetivo — seja desenvolver mediunidade, atrair prosperidade ou encontrar o amor —, um plano bem estruturado pode fazer toda a diferença.
Que sua jornada seja repleta de evolução e realizações.
O Neófito

